As Aventuras de Siena (1)

No dia 3 de Maio, eu, essa mera porcaria, dei à luz uma menina linda, grande e saudável. Siena nasceu com 3,600kg e 50 cm. Isso é bastante peso e medida se formos levar em conta que quem a carregava mede apenas 1,54m. Nasceu vermelha, parecia o leitão do ursinho pooh e com as mãozinhas roxas. Ela chorava muito, assim como seu pai e eu.
Antes de ficar grávida, costumava falar que queria ser mãe de menino. Besteira. Estou amando ser mãe de uma menina e curiosíssima pra saber como e pra onde ela vai querer ir nessa vida. Mas não tô aqui pra falar de mim. Tô aqui pra falar dela. Do seu primeiro mês.
Se eu pudesse descrever essa pequenina em uma palavra no mês de maio, a palavra seria FORTE. Siena faz força o dia inteiro. Tadinha, sofre com cólicas diariamente. Mesmo que eu já tenha tentado todas as receitas de mãe, pediatras e internet. É isso que vai deixar ela forte e determinada. Dá pra ver desde então. Ela não para um minuto. Estica os braços e as pernas e se movimenta tipo uma minhoca. Agarra meu sutiã com força quando tá mamando e levanta o pescoço toda a hora pra saber o que tá acontecendo. Claro que ela ainda não tá dura. Depois de mamar então, cai pra frente toda molenga e desengonçada que nem uma bêbada. Só que não é aquele bebê tão mole que dá medo de pegar.
Siena gosta de passear. De dar rolé no shopping e conhecer os fraldários. By the way, tanto o do Village Mall, quanto o do Fashion Mall e o do Botafogo Praia Shopping estão aprovados. Também acompanha a mamãe quando ela quer almoçar fora nos restaurantes e o melhor de tudo, não dá trabalho. Na rua, ela tá sempre quietinha. Só chora de cólica em casa… de repente ela chora é de tédio.
A menininha também adora comer e tomar banho. Inclusive, um dia fiz o favor de amamentá-la no chuveiro e como eu já previa, ela amou. O problema foi que eu morri de dor nas costas. Mas sim, valeu a pena ver aquele brilho de satisfação no olhinho dela.
Por mais estranho que possa parecer, já que sua avó criou uma conta de instagram que compartilha os diversos looks de Siena diariamente, essa pessoinha ODEIA se vestir. Mesmo no frio, sinto que ela gostaria de ficar de fralda e só.. fralda e meinha no máximo. Não é que ela não goste de estar vestida, o problema é a colocação da roupa. Cada vez que tentamos enfiar um braço dela na manga, ela se trava toda. Mais uma vez, a força. Mas não posso deixá-la com os peitinhos de fora, tenho que cobrir essa bolota. E cubro ela com roupas de menino e menina, já que além de não acreditar nessas porcariadas de menina tem que usar rosa, como não sabíamos o sexo antes dela nascer, quase todas as suas roupas são neutras.

Essa é só uma introdução. Pretendo escrever com mais frequência agora que (com a santa ajuda da minha mãe), me adaptei aos novos horários da maternidade. Antes de me despedir, tenho que dizer que estou extraordinariamente apaixonada o que me transforma numa daquelas pessoas que acabou de se deparar com o amor de sua vida: uma menina de um assunto só.

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Do dia

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“Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo e que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.”

Contraditada

Eu sempre fui aquele tipo de pessoa “do contra”. Imagino que seja aquele meu defeitinho que sempre completa o “ah, AMO a Isa, MAS, né?” quando as pessoas vão dar seus pareceres sobre mim. Não tenho coragem nem de concordar quando criticam alguém (mesmo que eu já tenha pavor dessa pessoa) com o argumento “ah esse aí só quer discordar de tudo, nem vale a pena levar em consideração”… fico bem quietinha, tento não ser hipócrita. Enfim, pra resumir, meu personagem preferido da Turma Da Monica era o Do Contra, ou seja, não é como se eu tentasse esconder que gosto de descer a escada rolante (que sobe pro segundo andar).

Acho que essa é uma forma de mostrar pra todo mundo que não estou nem aí para aprovação de ninguém, aliás, a aprovação de gente demais me incomoda e me faz pensar que tô fazendo alguma coisa errada. Eu sei, é esquisito, mas o fato é que o aquilo que os outros adoram me servem muito bem na hora de decidir os caminhos que não quero seguir. E claro, não quero apenas ser do contra, quero poder convencer o resto da humanidade de que tenho motivos pra isso. E essa dinâmica de gostar de argumentar somada com as grandes questões da gravidez (parto normal ou cesariana? Menina ou menino? Nomes? Onde vai fazer o enxoval? Como vai ser o quartinho?) e aquela pitadinha de mau humor, que só a Isa grávida consegue colocar pra fora tão bem, resultam em: cinco carinhas de “ah tá, mais uma vez você querendo ser A Diferente” por dia.

E mesmo que eu me olhe seminua no espelho e dê de cara com essa bela pancinha e esse peito que seria capaz de alimentar cinco bezerros e lembrar morrendo de orgulho que tem um serzinho se desenvolvendo a partir de tudo que Eu forneço e que pela primeira vez na vida, Eu vou ter o prazer inenarrááável de ensinar desde o zero o que Eu aprendi sobre as questões que realmente importam na vida (tipo: como ir em busca da felicidade, como evitar que a energia ruim chegue até nós, ou como diferenciar o bem do mal, mesmo que eles coexistam no mesmíssimo espaço várias vezes, ou seja, o básico), sei que na prática essa coisinha aqui dentro também será dona de uma personalidade.

Aprendi em casa que ser diferente ( mesmos dos meus pais) e nadar contra a corrente era uma opção e que mesmo com mais demora, eu poderia alcançar todos os meus sonhos e objetivos.
Então sim, eu quero uma criança que não ligue pro sexo que ela tem, mas e daí se ela se encaixar nos maiores clichês sexistas da humanidade? E quero um quarto montesoriano e uma alimentação vegetariana, mais livros e menos televisão e que principalmente, prefira sempre aquele bichinho que ninguém nem liga no desenho do momento, mas sério, só eu sei o quanto não faz sentido planejar como eu quero que pense o meu filhote que ainda nem nasceu. Até porque se ele puxar a mamy (todo mundo fazendo figuinha), vai querer ser tudo que eu não quero que ele seja.

Monotemática

Encontrei a Carol num aniversário, eu nem tinha muita intimidade, mas sabia que ela tava grávida.. E não sei porque, mas quando a gente sabe que alguém tá esperando um filho, falar sobre isso com ela é quase automático. A gente presume que TODAS as futuras mães estão dispostas a conversar sobre elas mesmas com QUALQUER outra pessoa. Sendo assim, lancei o bom e velho: “Você tá grávida, né?” com aquele sorriso sincero no rosto..todo mundo se alegra com um bebê novo no mundo. “Tô.”. Ela devia estar lá pelas 12 semanas e eu sem ter muito o que comentar, respondi “Mas nem parece, né?”. Minha vontade hoje é criar uma máquina do tempo, voltar naquele dia e dar muitos, muitos socos na minha cara.
Nas últimas semanas, ao me olhar no espelho, não tenho reconhecido o meu corpo. Não sei se me incomoda mais ele não parecer o meu corpo ou ele não parecer o corpo de uma grávida. E isso aconteceu de um dia pro outro. Espero que vocês não tenham ou venham a ter essa fase “mais ou menos” da gravidez. Eu sempre odiei tudo mais ou menos, aqui não vai ser diferente. Quero me fechar numa bolha por dois meses até ter uma barriga decente. Não quero escutar que to mais cheinha, mais encorpada, com a cara mais redonda, que eu tô com cara de mãe (oi?), mas principalmente, não quero escutar que “nem parece que eu to grávida”, por favor. E não, a questão não é ser magra ou gorda, creio que essa mudança de corpo é necessária e inevitável para todas nós, então por favor, respeitem esse meu momento de desespero exagerado e crise de identidade junto ao espelho e não me joguem no lodo do politicamente incorreto. E desculpa, Carol.

Integral

Pra começar, eu nunca acreditei
no sexo como uma boa forma de definir o ser humano. Não falo de orientação sexual e sim do que nos define como masculino/feminino ou qualquer coisa além disso. Nunca entendi porque esse é o tipo de coisa que querem saber sobre nós quando chegamos num país diferente, ou quando estamos prestando vestibular para uma universidade. Quando criança eu me encaixava muito mais no “universo masculino” do que no feminino. Nunca gostei de rosa, de princesa, nem de barbie. Gostava de super-heróis, videogames e macacão pra não ter que usar vestido. Sempre me senti ridícula ao me fantasiar de “sexo feminino” ou fazer qualquer coisa que me definisse como tal (menos flertar com todos os meninos do colégio, disso eu não abria mão). De lá pra cá, aprendi a gostar mais de ser mulher. Mesmo assim, depois de ser maquiada (só uso maquiagem em dias mega especiais) e colocar um vestido longo que define todas as minhas curvas pra ir em um casamento, me sinto meio palhaça ao me olhar no espelho. Demoro pra entender que aquele belo E.T. que pela primeira vez habita meu espelho, ainda sou eu, só que “mais bonita”.
Bom, diante dessa pequena explicação que diz 1% do porquê do meu repúdio a ter que ser homem ou mulher nesse mundo, fica mais fácil entender porque eu não faço a menor questão de saber se o meu futuro filho será um menino ou uma menina. E a angústia e vontade de vomitar um livro inteiro sobre o assunto que meu corpo produz quando as pessoas me perguntam: “uéé mas como você vai fazer o enxoval? E como vai pintar o quartinho?”. Sinceramente, prefiro que minha menina durma no quarto mais básico do mundo a obrigá-la a viver num ambiente todo rosa cheio de flores e borboletas e não me incomodaria nada de ver meu filho dormindo num quarto com arco-íris e unicórnios ( ou vice-versa). Não quero que a criança cresça com a ideia de que tem direito a apenas metade do mundo pra ela. E quando esse serzinho começar a formar sua personalidade e puder se comunicar, vai escolher dentre todas as opções do mundo, sua parede, suas roupinhas e seu corte de cabelo, sabendo que ele não precisa ser definida por um pênis ou uma vagina.

12 semanas

Eu tava me sentindo mal. Crescia em mim uma fraqueza que eu não reconhecia (apesar de ultimamente magrinha, sempre contei com minha força pra atestar minha saúde.).
Eu tava me sentindo má. Lembro de ter tido uma conversa com meu psicólogo sobre as patadas descomunais (até pra mim) que eu andava dando nas pessoas. Além de me sentir mal e má, os sintomas pareciam os de uma TPM qualquer: peito inchado, cólicas, dor de cabeça e vontade de comer chocolate. Sobre enjoar, eu sou uma pessoa enjoada naturalmente. Mas, né… Tcharan, eu tava é grávida. Não foi no susto, mas também não tava contando os dias, nem transando todo dia pra não perder a ovulação. A verdade é que do momento em que eu resolvi que teria filhos pro dia em que eu descobri que carregava um ser na minha pancinha, não passaram nem dois meses. Mas até eu sentir a gravidez de verdade, demorou mais um pouquinho. No início eu só me senti esquisita, meio doente, muito, muito chata e com preguiça de tudo e todos (sério, só queria dormir.). Não me agradava a ideia da anunciação da gravidez, da obrigação do planejamento de uma historia toda nova e dos compromissos hospitalares que me aguardavam. Confesso que muito disso mudou no dia do primeiro ultra som. Ver aquela miniatura de pessoa que se desenvolvia a partir do que eu provia me fez cair no lado bom (melhor do mundo) da realidade de ser mãe. Eu percebi que a fraqueza era só a força dividida por dois. E a chatice tinha a ver com a sensação de que só esse mini dentro de mim (que por agora também sou eu) importa na vida. Até aqui, a gravidez me parece uma suave e gostosa, porém egoísta, disputa entre a dependência e a independência que crescem lado a lado dentro de mim. Espero poder me reconhecer dentro dessas duas novas pessoas que crescem a partir de agora: eu com ele, ele em mim.

Do dia.

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“A vontade do homem é poderosa, leio isto em toda parte; mas seria o bastante para superar tal desgosto? As tarefas dos grandes homens foi fácil, por terrível que fosse o perigo, achavam-no belo; e quem pode entender, além de mim, a feiúra do que me cerca?” Aquele momento foi a maior provação de sua vida. Seria tão fácil engajar-se num dos belos regimentos assentados de Besançon! Poderia tornar-se professor de latim; precisava de tão pouco para sua subsistência. Mas então, adeus carreira, adeus futuro de sua imaginação: era como morrer. Eis um detalhe de seus tristes dias.
Tantas vezes me aplaudi, em minha presunção, por ser diferente dos outros jovens camponeses! Pois bem, já vivi bastante para ver que diferença gera ódio.

Supercalifragile…

Era só mais um domingo. No sábado, com uma amiga grávida, fui ao casamento de outra amiga grávida. Voltei pra casa cedo, pensando na quantidade de bebês que povoavam meu facebook agora e dormi. Ainda assim, o dia seguinte era só mais um domingo. Acordei e fiquei enrolando quase uma hora na cama. Meu marido na sala, quase não fazia barulho, parecia não estar lá. – Amor, tá fazendo o que? – Nada… To fumando um cigarro. Plausível. Criei forças e me arrastei pra sala. Nada de cigarros. Era o outro vício, isso mesmo, a Mary Poppins, o Burt e os dois pirralhos cantando e dançando iiiit’s supercalifragiliciespialidoceous. Desde aquele filme do Walt Disney nos bastidores da Mary Poppins, minha vida vem sendo um eterno spoonfull of sugar helps the medicine goes down. Meu marido respira Mary Poppins: o livro, os filmes, a trilha sonora no trabalho. Ainda assim, era só mais um domingo. Mas não por muito tempo.
Ver a Julie Andrews, minha musa, toda linda arrasando no “palco” com aquela voz de rouxinol me fez lembrar do quanto de tempo eu já não tinha mais pra correr atrás do meu grande sonho. Vamos ser realistas: eu não vou estrelar a próxima montagem do Fantasma da Ópera na Broadway, nem hoje, nem nunca. Não vou cantar On My Own num evento beneficente, nem sair voando enquanto berro “tell them how IIIII AM defyyying gravity, they’ll never bring me down..”ou mesmo ser só um animal figurante de patins em algum O Rei Leão pelo mundo. E no meio de todos os musicais que se despediam de mim na minha cabeça, eu vi a cena toda: eu com aquela roupinha branca e vermelha, o chapéu, o guarda-chuva, o Felipe fantasiado de Burt e a nossa filha morrendo de vergonha enquanto a gente estragava a festinha de 5 anos dela com uma maravilhosa performance de supercalifragiliciespialidocious com direito a pinguins e tudo o mais.
Não foi só mais um domingo. Naquele dia, eu soube definitivamente que queria ser mãe. E não só porque eu poderia usar a criança como acessório nas minhas fantasias de carnaval e escolher o tema da sua festa nos primeiro três anos de aniversário, pelo menos. Eu percebi que os filhos não brecam nossos sonhos e nosso viver, eles apenas deslocam o mundo todo ao nosso redor, tornando os nossos sonhos, às vezes até mais fáceis de se realizarem. Talvez eu produza um, talvez não. Mas talvez sim. E sabe, eu vivo pelos meus talvez.

Alice

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– What are we going to do now?
– I think we should both be grateful that we have come unharmed out of all our adventures, whether they were real or only…a dream.
– Are you really sure that?
– Only as sure as I am that the reality of one night, let alone that of a whole lifetime, is not the whole truth.
– And no dream is entirely a dream.
– But I think we’re awake now.. And for a long time to come.
– Forever.
– We should never look into the future.