Pra começar, eu nunca acreditei
no sexo como uma boa forma de definir o ser humano. Não falo de orientação sexual e sim do que nos define como masculino/feminino ou qualquer coisa além disso. Nunca entendi porque esse é o tipo de coisa que querem saber sobre nós quando chegamos num país diferente, ou quando estamos prestando vestibular para uma universidade. Quando criança eu me encaixava muito mais no “universo masculino” do que no feminino. Nunca gostei de rosa, de princesa, nem de barbie. Gostava de super-heróis, videogames e macacão pra não ter que usar vestido. Sempre me senti ridícula ao me fantasiar de “sexo feminino” ou fazer qualquer coisa que me definisse como tal (menos flertar com todos os meninos do colégio, disso eu não abria mão). De lá pra cá, aprendi a gostar mais de ser mulher. Mesmo assim, depois de ser maquiada (só uso maquiagem em dias mega especiais) e colocar um vestido longo que define todas as minhas curvas pra ir em um casamento, me sinto meio palhaça ao me olhar no espelho. Demoro pra entender que aquele belo E.T. que pela primeira vez habita meu espelho, ainda sou eu, só que “mais bonita”.
Bom, diante dessa pequena explicação que diz 1% do porquê do meu repúdio a ter que ser homem ou mulher nesse mundo, fica mais fácil entender porque eu não faço a menor questão de saber se o meu futuro filho será um menino ou uma menina. E a angústia e vontade de vomitar um livro inteiro sobre o assunto que meu corpo produz quando as pessoas me perguntam: “uéé mas como você vai fazer o enxoval? E como vai pintar o quartinho?”. Sinceramente, prefiro que minha menina durma no quarto mais básico do mundo a obrigá-la a viver num ambiente todo rosa cheio de flores e borboletas e não me incomodaria nada de ver meu filho dormindo num quarto com arco-íris e unicórnios ( ou vice-versa). Não quero que a criança cresça com a ideia de que tem direito a apenas metade do mundo pra ela. E quando esse serzinho começar a formar sua personalidade e puder se comunicar, vai escolher dentre todas as opções do mundo, sua parede, suas roupinhas e seu corte de cabelo, sabendo que ele não precisa ser definida por um pênis ou uma vagina.

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