Era só mais um domingo. No sábado, com uma amiga grávida, fui ao casamento de outra amiga grávida. Voltei pra casa cedo, pensando na quantidade de bebês que povoavam meu facebook agora e dormi. Ainda assim, o dia seguinte era só mais um domingo. Acordei e fiquei enrolando quase uma hora na cama. Meu marido na sala, quase não fazia barulho, parecia não estar lá. – Amor, tá fazendo o que? – Nada… To fumando um cigarro. Plausível. Criei forças e me arrastei pra sala. Nada de cigarros. Era o outro vício, isso mesmo, a Mary Poppins, o Burt e os dois pirralhos cantando e dançando iiiit’s supercalifragiliciespialidoceous. Desde aquele filme do Walt Disney nos bastidores da Mary Poppins, minha vida vem sendo um eterno spoonfull of sugar helps the medicine goes down. Meu marido respira Mary Poppins: o livro, os filmes, a trilha sonora no trabalho. Ainda assim, era só mais um domingo. Mas não por muito tempo.
Ver a Julie Andrews, minha musa, toda linda arrasando no “palco” com aquela voz de rouxinol me fez lembrar do quanto de tempo eu já não tinha mais pra correr atrás do meu grande sonho. Vamos ser realistas: eu não vou estrelar a próxima montagem do Fantasma da Ópera na Broadway, nem hoje, nem nunca. Não vou cantar On My Own num evento beneficente, nem sair voando enquanto berro “tell them how IIIII AM defyyying gravity, they’ll never bring me down..”ou mesmo ser só um animal figurante de patins em algum O Rei Leão pelo mundo. E no meio de todos os musicais que se despediam de mim na minha cabeça, eu vi a cena toda: eu com aquela roupinha branca e vermelha, o chapéu, o guarda-chuva, o Felipe fantasiado de Burt e a nossa filha morrendo de vergonha enquanto a gente estragava a festinha de 5 anos dela com uma maravilhosa performance de supercalifragiliciespialidocious com direito a pinguins e tudo o mais.
Não foi só mais um domingo. Naquele dia, eu soube definitivamente que queria ser mãe. E não só porque eu poderia usar a criança como acessório nas minhas fantasias de carnaval e escolher o tema da sua festa nos primeiro três anos de aniversário, pelo menos. Eu percebi que os filhos não brecam nossos sonhos e nosso viver, eles apenas deslocam o mundo todo ao nosso redor, tornando os nossos sonhos, às vezes até mais fáceis de se realizarem. Talvez eu produza um, talvez não. Mas talvez sim. E sabe, eu vivo pelos meus talvez.

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