Sabe quando a gente tá louca pra ganhar um ponei de aniversário de 4 anos e ganha uma roupa? Ou quando nos seus 15 anos, sua mãe insiste em te dar uma jóia quando tudo que você queria era um sutiã que aumentasse seu peito? Acho que foi mais ou menos essa a sensação da minha mãe quando eu comecei a ter uma personalidade. Vou explicar: minha mãe é toda peruete, fashion e linda e provavelmente tava louca por uma princesinha ( que pra nossa felicidade já tinha chegado mas quase não falava nessa época) e acho que a primeira frase completa que eu consegui verbalizar foi: eu odeio vestidos. Mas não era só aquele armário abarrotado de vestidinhos com casinha de abelha e laçarotes que me incomodava, eu tinha certeza que era um menino preso no corpo de uma menina até uns cinco anos.
E o meu maior orgulho foi nunca ter imaginado que a minha mãe devia enlouquecer com aquela criança que alagava o chão do banheiro dela tentando fazer xixi em pé e odiava rosa. E nunca ter entendido antes de adulta, o trabalho que eu dei com todos os meus problemas de saúde.
Quando eu nasci, ela tinha que fazer fisioterapia em mim por causa da hipotonia muscular, um distúrbio chato que resultou em anos de oftalmologista, fonaudióloga e ortodentista semanais. E quem me levava? Mamãe. E quem agia como se essa nossa rotina fosse a rotina normal de todas as famílias? Mamãe. E enquanto milhares de pessoas lindas sofriam bullying no colégio, quem é que se achava a última bolacha do pacote mesmo com dúvidas sobre a própria sexualidade, vesga, dentuça e menor que todo mundo? Eu.

Mãe, obrigada por ter me amado como você amaria uma filha princesinha maravilhosa mulherzinha e perfeita. Obrigada por ter me ensinado a sempre me ver linda, por ter me ensinado que minhas supostas imperfeições faziam parte do conjunto maravilhoso de características que me tornavam uma pessoa única. Obrigada por em momento algum ter feito eu me sentir menor ou mais fraca, mesmo eu tendo sido menor e mais fraca que todo mundo pela maior parte da minha vida.
E principalmente, obrigada por ter abdicado da tua vida por 20 anos pra transformar eu e minha irmã nas duas mulheres mais bem sucedidas na arte de ser feliz que eu conheço. E eu só vou saber disso quando tiver meus próprios filhos, mas espero que tenha valido a pena. Te amo em todos os segundos da minha vida e vai ser assim pra sempre.

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