Deu não só uma mas as duas mãos a ela. Ela parecia tão fácil, tão simples. Sempre sorrindo, sempre sabendo chegar, sempre sabendo o que falar. Ela não sabia tudo, mas fazia parecer que sabia um pouco de tudo e isso refrescava o ambiente. Os olhinhos dele tão pequenos ainda, tão cheios de vida pra ver, brilhavam e piscavam insistentemente. Eram vidas e mais vidas dentro daquele pequeno corpo magro e não tão atraente. Só o corpo não era atraente, ela parecia preenchida e envolvida por uma força absoluta pra uns, por um arco íris cheio de unicórnios pra outros, por um manto sagrado pra esses e milhões de moedas de ouro pra aqueles, você entende? Ele também não entendia, acreditou que o que via era o que realmente existia. Não era. Por mais que quisesse e precisasse, não era. Mas deixou-se envolver. Precisava de uma amiga. Sozinhos, acabamos por perceber amigos em todos aqueles que nos deixam entrar mesmo que por um segundo e deixamos de perceber os convites para nos retirarmos depois. Não tardou a acontecer o que sempre acontecia. A leveza transformou-se em algo que ele insistia em não ver e era difícil demais de explicar. Ninguém quer se conscientizar do que é difícil de explicar, é melhor simplesmente ignorar o que veio depois da parte boa. Acabou por soltar-lhe as mãos. Ela não precisou pedir. Era a hora de todo peso, de toda fraqueza, falta de cor, vulgaridade e pobreza. Era a hora mais escura e ele e seus olhinhos morriam de medo da falta de luz.

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