Ele acordou com uma vontade louca de estar sozinho. Acordou mais cedo que ela, vestiu só uma bermuda, a primeira do armário e saiu correndo pela orla. Não perdeu tempo nem pra calçar um chinelo. Foi descalço, sem camisa, sem celular no bolso e sem chave de casa. Precisava sentir que era livre. Precisava sentir que era um. Já era tempo de lembrar daquele que havia deixado pra trás pra dar espaço pra ela. Ela que hoje era ele, ele que hoje era mais ela do que ele. Não sabia como tudo tinha acontecido. Só foi se tocar no dia que viajou sozinho e ao chegar lá sentiu mais a presença dela do que nunca. Em cada palavra que proferia, em cada frase do livro que lia, em cada menina que passava de biquíni a caminho da cachoeira, em cada falta que ela fazia e cada falta que ela não fazia. A ausência dela já gritava mais que a própria presença. E olha que ela gritava. E mostrava o tempo todo que estava lá. Chorava, ria e falava sem parar. A falta que ela fazia e a falta que ele fazia pra ela criaram um novo ser que pairava no alto de sua cabeça, com julgamentos, manias, dramas e enigmas psicológicos. Era uma presença quase que amedrontadora.

Ele precisava se sentir sozinho de novo, nem que fosse por um segundo. Por isso foi embora, cedo, sem avisar, de casa pra praia e mergulhou e nadou até não conseguir mais. Sozinho, no meio do mar, sem barulho que fosse, sem pessoas ao seu redor, sem visão do que acontecia depois do espelho d’água que dali parecia infinito. Sentiu-se sozinho enfim. Lembrou de tudo que fora um dia. Lembrou da época do colégio e da facilidade que tinha para fazer amigos. Lembrou de todas as meninas que tinha dispensado por pura preguiça de lidar com o sexo oposto. Lembrou dos cards de baseball que colecionara por anos e depois vendera pra poder comprar um videogame. Lembrou da noite que passara acordado pra zerar um jogo no mesmo videogame com um amigo enquanto comiam pão de queijo. Lembrou do futebol de segunda, o futebol de quarta dois anos depois e finalmente o futebol da quase madrugada de quinta. Lembrou dos personagens que povoaram sua infância. Lembrou dos primos que parecia não ver há séculos. Até que percebeu que as lembranças não traziam nada de volta, as lembranças saíam de sua cabeça e quase simultaneamente se afogavam em alto-mar, por mais que as tentasse salvar. Era inútil tentar se trazer de volta. Ele sem ela já estava morto. Ele com ela não contemplava o dom da ressurreição. Não saberia pra sempre porque nada mais fazia o menor sentido.

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