Ela nasceu numa casa em pedaços. Destruída pela força do tempo e das chuvas que degradavam as paredes. Cresceu sozinha no meio de um pai que estava preocupado com a pescaria do dia seguinte, quando poderia ficar longe dela por mais algumas horas de sua vida, e uma mãe preocupada em arrumar um novo amor que substituísse o que o pai não a dava há muito tempo. Quase não falava com ninguém. Os amigos da rua eram chatos demais, os da praia burros demais, o irmão mais velho inteligente demais. Ela tinha um irmão mais velho que tentou admirar, mas desistiu quando percebeu que a vida dele não tinha espaço em branco que ela pudesse preencher. Nem na dele, nem na do pai, nem na da mãe. Foi atrás dessa pessoa. A pessoa com um espaço vazio que esperava por suas ideias, amores, sonhos, conversas. Saiu de casa e a pé foi caçar aquele espaço. Ia deixando um pouco de si em cada um que encontrava, mas percebia que sempre o que ela dava, não passava de um rabo pros outros, uma parte que ninguém precisava. E ela precisava demais ser precisada. Tudo que ela tinha, crescera a partir do seu próprio vazio. A vontade de preencher o vazio alheio, só serviu para alargar cada vez mais e mais e mais, o buraco que tinha aberto no meio do peito. Anos depois encontrou alguém com o vazio que ela podia preencher, mas o que tinha agora já não era suficiente pra tirar e entregar pra ele. Ou ela sumia, ou deixava ele sumir.

Anúncios