Eu queria escrever. O tempo todo, eu queria escrever. Na verdade, queria que fosse escrito. Queria que tudo que eu pensasse fosse impresso numa máquina no fim do mundo e que quando eu chegasse lá, eu pudesse reler minhas memórias, entender como cheguei ali afinal. Eu penso tanto no banho, sou uma filósofa de chuveiro, sou um gênio nu debaixo d’água corrente. E só ali. É botar o pé no tapete, me enrolar na toalha, lembrar que além de mim, existem mais milhões, pros meus pensamentos se embaralharem, serem esquecidos, pra nada mais fazer tanto sentido. Quando eu falo então, de gênio me faço a cara da estupidez, da prepotência e do vazio. Nada é tão belo pros outros quanto é pra mim. Nada é tão verdade, nada é tão bom. Eles não conhecem minhas intenções, não conhecem o meu interior, minhas tripas que me pedem pra serem colocadas pra fora todo dia. Eles não entendem como eu posso ser tanto  essa vontade de me virar do avesso. Mas eu dentro de mim também quero sair, tanto quanto a parte de fora quer entrar e desaparecer, por medo de estar mostrando o que não é. E ao contrário, não pareço ninguém. Não encontrar nada pra se identificar, dói, só que é isso que eu busco o tempo todo, mesmo sabendo que dói. Dói em mim e dói nos outros. Eu doo em mim, mas doo também em todo mundo, sem sentir. Eu amo em mim e amo em conjunto. Eu sou eu, eu sou o que me faz gostar de você e eu sou o que me afasta dos outros. Eu sei que tudo que eu vejo, que eu sinto, sou só eu. O que me faz bem, sou eu, o que me faz chorar, sou também eu. Só eu, só que tantas…

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