Tudo bem, eu cheguei tarde demais e saí cedo demais no dia seguinte. Eu me escondi quando tive que aparecer e apareci quando você não queria me ver. Calei quando você torceu pra que saísse de mim o que você só pensou em falar e falei tudo aquilo que você não queria escutar. Te empurrei na água pra você aprender a nadar e numa selva de leões querendo que você aprendesse a se defender, quando você queria dormir pra sonhar com qualquer um que não fosse eu. Quis te puxar pela mão e te levar comigo pra conhecer os meus lugares, sem saber que você preferia conhecer lugares novos que não tinham passado debaixo dos meus pés usados. Você não queria seguir meus passos, tinha medo deles virarem as costas pra você ou virarem de frente mostrando o que você não queria ver. Tudo que você evitou e eu forçosamente tentei te mostrar, não deixou de existir. Eu só pedi que você confiasse no julgamento de quem queria o melhor pra você, mas pra você esse não era eu. Pelo contrário, todos sabiam melhor o que ia te fazer bem. O que todo mundo dizia massacrou meus pensamentos, aqueles que eu tentei inserir pouco a pouco no seu cérebro e no seu sangue. Foi como uma daquelas operações de transplante de coração que não deram certo. Você me rejeitou. Rejeitou o que eu trazia de novo, quis que eu parecesse mais com seu velho coração, por mais que você não conseguisse distinguir as mudanças que ocorreram nele depois de todos aqueles anos, de todas as surras e apertos. Seu velho coração ficou pra trás, junto com o que eu tentei criar. Você continuou vivendo com a força que o mundo te dá quando você acredita nele, continuou repetindo as palavras, os gestos e até o amor do mundo. O mundo também pensa, também dá colo, é ombro amigo e dá a mão. Mas não pra mim.

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