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Crianças costumam lutar contra o sono. Algumas tem medo do escuro ou da noite. Outras tem medo de sua própria mente e sonhos. Alguns estranham a ausência dos pais na hora de dormir. O menino da história que vamos contar achava que à noite ele podia fazer tudo aquilo que durante o dia poderia ser julgado e recriminado pelos outros. Ele dormia de dia, enquanto todas aquelas pessoas em volta dele diziam o que era certo e o que era errado e acordava a noite pra ficar no quarto escrevendo sobre um mundo sem nada disso. Sua insônia começou junto com o aprendizado da leitura (que foi precoce). Seus pais, mesmo sendo do circo e esquisitos, tinham vergonha do menino: ele tinha cara de mau. Aos 4 anos.

Todas as tentativas de matriculá-lo num colégio foram inúteis. Ele só precisava de 15 minutos pra assustar qualquer professor ou diretor: fazia xixi em público, comia pedras, deitava em cima da mesa e berrava, como se isso não fosse nada. Os pais resolveram educá-lo em casa, à noite, e evitar ter que apresentá-lo às pessoas, quando eles não estavam viajando com o circo.

Caso esse menino costumasse sair na rua, ele já não seria mais só um menino. Já tinha 13 anos mas, por não ter amigos, não gostar de sair e nem ao menos ver televisão e internet, sabia muito pouco da vida além do que lia nos livros. E o que lia, ele não relacionava com a vida real, até as biografias, pra ele eram apenas histórias fantasiosas de um reino bem distante do dele.Desde os 11 anos, ele saía de vez em quando, em torno das duas da manhã pra ver se encontrava alguém parecido com ele na rua. Ele sonhava com uma menina, que também não gostasse de dormir de noite e nem de encarar a vida de dia. Essa menina existia nas suas histórias, então ele sabia exatamente como ela era, mas ainda não a havia encontrado.

No seu aniversário de 14 anos, ele ganhou o melhor presente de todos: uma irmãzinha. Ele nem tinha reparado que a mãe estava grávida. Ele não ligava pra mãe ou pro pai, mas na hora que viu o bebê, soube que ela era sua melhor amiga, pra sempre.

10 anos passaram. O menino continuava com suas histórias, mas sua irmãzinha o tinha ajudado a querer conhecer um pouco mais do mundo real e dos dias, só por existir. Agora as noites eram melhores ao lado dela e dormir era quase impossível. Ele agora saía, de dia, tinha amigos e às vezes se engajava em movimentos subversivos contra ou a favor de qualquer coisa, ele não se importava. E ainda não se importava com os pais, com o colégio que ele nunca tinha frequentado, nem com os empregos os quais ele jamais procuraria. Sua irmãzinha era absolutamente tudo pra ele. Eles agora viviam sozinhos. Os pais, tinha saído com o circo há 9 anos atrás e quando voltaram pra casa não encontraram o menino, ou o bebê que tinha ficado aos seus cuidados. Ele resolvera achar um lugar “melhor” pra eles morarem. O lugar melhor era um quarto de hotel abandonado, com as janelas todas fechadas, onde nunca se sabia se era dia ou noite.

A menina de 10 anos, vivia com os pés algemados às grades da janela. As correntes eram bem grandes, ela podia circular por todo seu mundo, que era aquele quarto. Desde que se entendia por gente, sabia que a hora de dormir, era de dia, quando seu irmão não estava em casa. Assim que ele chegava, se ela não tivesse acordado com o barulho da porta, a sacolejava com raiva até que despertasse. A noite era o cenário perfeito pra eles conversarem sobre tudo que não existia praquela menina sem curiosidade. Ela entendia que sua única missão na vida, era fazer o irmão feliz. E não entendia que era errado que estivesse algemada, mesmo que seus pés doessem muito, nem que era errado que ela nunca tivesse visto ou sentido o Sol. Eles conversavam sobre as histórias do menino, que era tudo que a menina lia e só falavam de notívagos e sonâmbulos. Ela nunca ouvira falar do Sol. Nem dos pais.

O irmão já estava cansado. 23 anos de uma vida vazia, que só poderia ser preenchida pela irmãzinha que ele amava, se ela não fosse sua irmãzinha. A dor da vida dele, era saber que ela era a mulher das suas histórias, ele morria de vontade de fazer com ela o que ele fazia com as ativistas taradas do seu grupo de amigos, mas preferiu morrer de desgosto mesmo, colocou-se na linha de frente, por todos aqueles que não eram seus amigos e por aquelas causas com as quais jamais havia se solidarizado. Tomou um tiro no peito e morreu a caminho do hospital, sem seus pais e sem a irmã querida.

Com a falta da comida que o irmão levava, a menina que só dormia de dia emagreceu até seus tornozelo ficar fino o suficiente pra sair facilmente das algemas. Ela saiu e era exatamente meio-dia. O Sol queimava e brilhava como em todos os dias que ela nunca tinha vivido e não entendia. Ela gritou, gritou, tirou a roupa e continuou gritando, até que alguém veio buscá-la para que fosse levada para um hospital pra crianças com distúrbios mentais, onde vestiu uma camisa de força e voltou a viver a vida das histórias do irmão e dos seus sonhos, a única que ela conhecia e que ela sempre quis.

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