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Eu desisti de ser uma menininha desde que entendi as diferenças entre homens e mulheres. O inferno da minha infância foi querer ser um molequinho. Minha mãe teve sorte, teve uma filha meiga, linda e feminina apenas um ano depois, caso contrário, tenho certeza que ela teria sofrido bem mais com o meu desgosto por ter uma vagina. Tendo duas meninas, deve ter sido até bom que uma delas fosse mais pra menininho, gostasse de roupas camufladas e conjuntinhos de bermuda e blusa social. Não sei se eu queria mais ser um menino ou poder estar perto deles. Eu gostava de brincar de comandos em ação, videogame e era chamada pelos meninos pra ir ao cinema quando estreavam filmes do tipo Mortal Kombat. Já gostava de super-heróis, meu ídolo era o Shaquile O’neal e pra completar essa grande justificativa prévia, meu sonho era fazer xixi em pé.

Somei à vontade de ser menino, a constatação de que mesmo sendo vesguinha, usando óculos e tampão no olho, sendo dentuça com aparelho freio de burro e andando por aí com botinhas ortopédicas, todos os meninos que eu queria namorar, me queriam de volta. Talvez fosse a falta de competição, nessa época, as outras meninas preferiam Barbies a combinar encontros escondidos pra dar beijinhos na boca dos outros e depois tomar esporro das professoras do jardim de infância e ficar com medo de ter sapinho.

Mas me perdoem, eu ainda não disse o que to tentando explicar. Quem chutou: a minha visível falta de vaidade, ganhou um ponto. Escovar os cabelos (e que cabelos, né?) e usar vestidos sempre me pareceu similar a andar em direção a forca. Um vestido era quase uma agressão, representava tudo aquilo que eu não queria ser e não queria sentir mas não podia escapar porque desde que o mundo é mundo, quem não tem pinto, usa vestido. Quando entendi isso (com a minha genialidade juvenil aos 2 anos) começou minha saga de querer ser e fazer tudo ao contrário do que esperavam de mim.

Eu continuo não usando maquiagem, frequentando o salão bem menos do que deveria e saindo de casa que nem um mendigo de vez em quando. Não sei se é pra irritar minha mãe que chora cada vez que percebe que eu não fiz a unha essa semana, de novo. Ou se é porque eu acredito que se embonecar (ou na minha opinião babaca, se empalhaçar) não deixa ninguém mais bonito, só deixa as pessoas parecendo ser menos quem elas são. Só sei que prefiro que gostem de mim e me achem bonita ou não, por quem eu sou de verdade. Realizem, amigos, que ninguém no mundo acorda pronto pra desfilar na passarela e que essa beleza clichê de páginas de revistas é cansativa pacas.

(isso tudo pra tentar justificar porque eu to andando pra lá e pra cá com as sobrancelhas do Brizola desde que cheguei de viagem. Viram? Nem eu consigo fugir de me achar um patinho feio às vezes. Vaidade é muito mais do que querer usar maquiagem.)

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